PROTEGER E RESTAURAR 80% DA AMAZÔNIA 2025–2030
AMAZÔNIA EM PERIGO DE EXTINÇÃO
O relatório “Amazônia em Perigo” é uma coleção de 22 artigos escritos por 55 autores de diferentes áreas — líderes indígenas, ativistas, tomadores de decisão, políticos, entre outros — e está dividido em três seções. A primeira parte apresenta a “Ciência por Trás do Ponto de Inflexão”, que nos últimos anos despontou como uma nova área de conhecimento que analisa não apenas o desmatamento e a degradação, mas também a integridade dos ecossistemas, os rios voadores e as evidências que emanam dos territórios. Nesta edição, inclui-se também uma análise da água, essencial para uma visão integrada da bacia amazônica. A segunda seção apresenta os “Motores da Destruição”, com artigos que abordam o impacto dos produtos básicos (commodities) na Amazônia, as consequências das atividades “legais” (petróleo, mineração) em áreas-chave de biodiversidade e territórios indígenas, bem como os impulsores “ilegais”, como o desmatamento e a mineração ilegais. Três líderes indígenas de diferentes organizações incluem seus testemunhos sobre o impacto do extrativismo em suas comunidades. A terceira e última seção, “Rumo a um Novo Paradigma”, é uma coleção de contribuições disruptivas que podem mudar radicalmente a trajetória rumo a um novo paradigma para a Amazônia. Não é filosofia; são realidades já em andamento que podem ser replicadas, ampliadas, divulgadas, (re)inventadas e desenvolvidas — em resumo, ações capazes de transformar as políticas públicas a partir de uma perspectiva diferente, desde a periferia.
RELATÓRIO COMPLETO
- 1. Nossa Capa
- 2. Relatório Completo
RESUMO EXECUTIVO
A CIÊNCIA POR TRÁS DO PONTO DE NÃO RETORNO
- 1. Apresentação do livro
- 2. Introdução
- 3. Proteger e restaurar as áreas-chave da Amazônia 2025-2030
- 4. Uma conferência das partes às portas do ponto de não retorno da Amazônia
- 5. Uma Amazônia Viva: Protegendo 80% até 2025 – Diplomacia Climática com Identidade
- 6. Evitar um ponto de não retorno na Amazônia significa acabar com o desmatamento e a degradação
- 8. Ponto de inflexão na Amazônia: a importância dos rios voadores que conectam a Amazônia
- 7. A água e seus ecossistemas aquáticos: base da integridade ecológica da Amazônia
MOTORES DO DESMATAMENTO E DA DEGRADAÇÃO
- 1. Rastreando o desmatamento impulsionado por commodities na Amazônia: dados sub-regionais para orientar políticas públicas
- 2. Economias ilícitas e governança criminal na Amazônia: uma ameaça para a região e o clima global
- 3. Ameaças extrativas na Amazônia: sobreposição de concessões de petróleo, gás e mineração com territórios indígenas e áreas-chave para a biodiversidade
- 4. Da exploração à restauração: a presença do Canadá na Amazônia e o poder transformador da solidariedade internacional
- 5. Os povos indígenas em situação de isolamento e contato inicial no Peru
- 6. Resistências ecoterritoriais ao extrativismo e salvaguarda da biodiversidade no sul do Orinoco: o caso da Amazônia Venezuelana
- 7. Defendendo os defensores na Amazônia: Justiça Climática, direitos humanos e transição energética
RUMO A UM NOVO PARADIGMA
- 1. Saberes que dialogam para proteger e restaurar a Amazônia
- 2. Do kawsak sacha ao chaska kausay: políticas desde o território para a Amazônia e o planeta
- 3. Como comunicar para salvar a Amazônia?
- 4. Comunicar é resistência: a militância amazônica e o surgimento de novas redes de comunicadores indígenas
- 5. As contas econômicas além da tirania do PIB: um mecanismo para salvaguardar a megadiversidade
- 6. Financiamento direto a organizações indígenas: um pilar crucial para restaurar a Amazônia a partir de seus próprios territórios.
- 7. A Amazônia não espera: pacto de vida para uma nova soberania latino-americana.
- 8. Um olhar regional sobre a dívida, a crise climática e o extrativismo nos países amazônicos.
Onde Estamos Agora?
O relatório “Amazônia em perigo de extinção” não é uma continuação do relatório de 2022 “Amazônia contra o relógio”. Os dados apresentados aqui demonstram o colapso de um sistema construído ao longo de milênios. Trinta por cento do que chamamos de Amazônia está desmatado e severamente degradado. Isso significa que o nível de degradação entre 2020 e 2024 aumentou quatro pontos percentuais.
Esta pesquisa, desenvolvida desde 2021 pela Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (RAISG), no âmbito da iniciativa “Amazônia pela Vida: Proteger e Restaurar 80% até 2025–2030”, utiliza uma metodologia própria baseada em dados de 1985 a 2024. Ela apresenta um conjunto de descobertas cujo objetivo é informar e orientar políticas globais e nacionais para evitar o avanço de cenários de ponto de não retorno que já estão ocorrendo em certas regiões amazônicas.
Em primeiro lugar, este relatório apresenta uma atualização dos resultados incluídos no relatório de 2022 “Amazônia contra o relógio”, elaborado com dados da RAISG de 2020. O objetivo é demonstrar a trajetória do desmatamento, da degradação e dos incêndios, e seu impacto em nível regional nesses dois períodos: 2020 e 2024. Em segundo lugar, os dados são desagregados por país para fornecer subsídios que permitam tomar ações emergenciais diante de pontos de não retorno já presentes em alguns territórios. Por fim, analisa-se a penetração da degradação, do desmatamento e dos incêndios nos Territórios Indígenas, nas áreas protegidas e, nesta edição, nos Sítios Ramsar.
Os dados confirmam uma trajetória acelerada rumo a um ponto de não retorno em várias regiões, caso não sejam adotadas medidas urgentes. No entanto, a conclusão final é que 70% da Amazônia ainda permanece de pé, e que as áreas prioritárias foram identificadas com base em 12 variáveis que podem orientar políticas públicas regionais e nacionais imediatas.
Algumas conclusões-chave desta pesquisa são apresentadas a seguir:
- No total, durante os 40 anos analisados (1985–2024), a Amazônia perdeu 136 milhões de hectares de floresta, uma área equivalente a quase três vezes o tamanho da Espanha.
- Entre 2021 e 2024, a região experimentou uma aceleração sem precedentes na perda de sua cobertura natural, com uma taxa de transformação e degradação de cerca de 8 milhões de hectares por ano, equivalente a mais de 33 milhões de hectares afetados em apenas quatro anos.
- Enquanto os dados de 2020 mostraram uma perda de 26% devido ao desmatamento (20%) e à degradação severa (6%), em 2024 as áreas transformadas e degradadas cobriam 30% da Amazônia, reduzindo as áreas com alta funcionalidade ecológica para 70%. Essa tendência indica um risco real e iminente de perda irreversível de resiliência nos ecossistemas amazônicos, ameaçando a estabilidade climática, a disponibilidade de água e a biodiversidade da região.
- A Bolívia e o Brasil continuam sendo os países com os maiores níveis de transformação e degradação dos ecossistemas e paisagens amazônicas, como já foi evidenciado no relatório de 2022.
- O ano de 2024 se delineia como um dos mais catastróficos, com mais de 21 milhões de hectares afetados pelos incêndios.
- Em 2024, os indicadores mostram um aumento moderado: 13% nos Territórios Indígenas e Áreas Protegidas e 25% nos Sítios Ramsar, em contraste com uma preocupante taxa de 47% de transformação e degradação fora dessas áreas.
- Os resultados confirmam o papel fundamental dos Territórios Indígenas como mecanismos eficazes de conservação, comparáveis às áreas protegidas.
- Em 2024, a Amazônia possui mais de 538 milhões de hectares de floresta estável, o que significa que 70% permanece de pé. Desse total, os Territórios Indígenas salvaguardam 202 milhões de hectares, as Áreas Protegidas 174 milhões e os Sítios Ramsar 25 milhões. Em contraste, as florestas fora dessas áreas protegidas são as mais vulneráveis à perda e à fragmentação, exigindo urgentemente estratégias eficazes de conservação e restauração (abrangendo 194 milhões de hectares de floresta).
- Um plano de ação para a restauração de pelo menos 10% da Amazônia deve ser um resultado tangível da COP30.
- É urgente que a região assuma uma meta regional para evitar um ponto de não retorno.
O Estado da Amazônia por País
A tendência regional volta a posicionar Bolívia e Brasil como os países com os maiores níveis de transformação e degradação dos ecossistemas e paisagens amazônicas. No caso da Bolívia, cuja região amazônica representa 65% do território nacional, até 2024 28% foi transformado e 10% degradado. Por sua vez, o Brasil, que possui 61% de seu território dentro da região amazônica, apresenta 32% de transformação e 4% de degradação. Em ambos os casos, a expansão da fronteira agropecuária, o desmatamento e os incêndios florestais contribuíram para a redução significativa das Áreas-Chave para a funcionalidade e integridade ecológica da Amazônia como um todo.
Da mesma forma, os resultados comparativos entre 2020 e 2024 evidenciam tendências preocupantes no Equador e na Colômbia. No Equador, 23% das áreas amazônicas já apresentam níveis de transformação, enquanto na Colômbia a transformação e a degradação atingem 19%. Esses números refletem uma expansão contínua das pressões antrópicas e uma perda acelerada da conectividade ecológica em setores críticos para a conservação regional.

Territórios Indígenas, Áreas Protegidas e Sítios Ramsar: os Escudos da Amazônia
Aproximadamente metade da Amazônia é composta por Territórios Indígenas (TI), Áreas Protegidas (AP) e Sítios Ramsar, que se consolidaram como verdadeiros escudos contra o desmatamento e a degradação. Esses territórios constituem uma peça essencial nas soluções esperançadoras para a conservação e a resiliência da Amazônia.
Embora desde 2020 a transformação e a degradação dos ecossistemas amazônicos não tenham dado trégua — impulsionadas principalmente pela expansão da fronteira agropecuária e pela recorrência crescente de incêndios florestais — as taxas de deterioração dentro dos TI, AP e Sítios Ramsar permanecem significativamente abaixo das registradas fora desses espaços, confirmando seu papel como barreiras eficazes contra o colapso ecológico.
Em 2020, essas três figuras territoriais registravam níveis de transformação e degradação de 10% nos Territórios Indígenas, 11% nas Áreas Protegidas e 19% nos Sítios Ramsar, enquanto fora deles a transformação ultrapassava 42%.
Em 2024, os indicadores mostram um aumento moderado: 13% nos TI e AP e 25% nos Sítios Ramsar, em contraste com preocupantes 47% de transformação e degradação fora desses espaços.
Os resultados confirmam o papel fundamental dos Territórios Indígenas como mecanismos eficazes de conservação, comparáveis às áreas protegidas. Em muitos casos, um território indígena titulado representa, de fato, uma garantia de proteção e manutenção da funcionalidade ecológica, mesmo quando a conservação não é seu objetivo explícito.
Além disso, as estatísticas comparativas de 2020 e 2024 mostram que as áreas onde um Território Indígena, uma Área Protegida e um Sítio Ramsar coincidem ou se sobrepõem apresentam os maiores níveis de integridade ecológica e as menores taxas de degradação, consolidando um modelo territorial essencial para sustentar a resiliência amazônica.
